Clientes de qualidade

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Clientes de qualidade

Com base na minha experiência em tradução (ainda pouca, mas razoavelmente relevante) e no que vejo por aí no mercado, percebi que muitos problemas de qualidade se devem à desinformação e à má comunicação entre as partes envolvidas no processo de tradução. Como uma dessas muitas pontas soltas é o cliente, o post que você vai ler agora aborda alguns percalços bastante comuns no relacionamento entre os tradutores e seus clientes. Vamos a eles:

Perdoe, eles não sabem o que fazem

Você precisa partir do pressuposto de que, na maioria das vezes, seu cliente não conhece o mercado de tradução. Portanto, cabe a você informá-lo de que esse trabalho vai muito além de meramente reproduzir as palavras de um idioma no outro (isso o Google Translator já faz bastante bem). Ou seja, o cliente pode oferecer tarifas muito menores do que o valor esperado por desconhecer o mercado da tradução e por não saber que o ato de traduzir é complexo, e na verdade ele não tem obrigação de saber isso logo de cara.
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Sendo assim, se um cliente oferecer um trabalho e propuser um valor que você considera muito baixo por ele, recuse. No entanto, vá além de simplesmente recusar e informe-o, mostrando que a sua função envolve pesquisa terminológica, manutenção de glossários e memórias de tradução, uso de ferramentas caras e outras atribuições, e que tudo isso demanda mais tempo do que se imagina.
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Ao fazer isso, você mostra que reconhece o valor do seu próprio trabalho e o cliente percebe que não está lidando com um profissional qualquer. Além do mais, são grandes as chances de você conquistar um cliente sério que esteja disposto a pagar um valor justo por um trabalho de qualidade. Ao plantar informação, muito provavelmente você colherá bons frutos de confiança.

Ok. Eu dei a mão, mas agora ele quer o braço

Outro problema bastante comum (também relacionado à desinformação) é o cliente que demanda escopos diferentes por um preço único. Cada vez mais vejo tradutores reclamarem de clientes que enviam arquivos escabrosos com tarefas complexas de DTP, por exemplo, mas querendo pagar apenas o valor de um trabalho  de tradução.

Novamente, para evitar estresse, dê uma de João sem braço e parta do pressuposto de que seu cliente não sabe muito bem o que está pedindo. Informe que tradução e DTP (ou qualquer outra atividade adicional envolvida) são tarefas muito diferentes, que exigem esforços diferentes, ferramentas diferentes e até mesmo profissionais diferentes. Se entender isso e valorizar seu trabalho, ele certamente não verá problema em pagar um valor maior e mais justo pelos dois serviços. Daí em diante, cabe a você avaliar se quer terceirizar a tarefa ou se você mesmo já tem conhecimento para assumi-la.

E se o meu cliente já souber de tudo isso, mas continuar oferecendo um valor baixo pelo meu trabalho?

De todos, esse é o caso mais difícil. Se o cliente já conhece todo o processo e continua oferecendo um valor muito baixo pelo trabalho, repense a parceria com ele. Eu sei que isso é complicado no caso de tradutores iniciantes, que ainda não podem se dar ao luxo de recusar clientes. Nesse caso, o iniciante pode aproveitar a oportunidade de trabalho com esse cliente para exercitar a prática da tradução e ganhar mais experiência até amadurecer o bastante para bater asas e voar em busca de outros que paguem melhor.
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Pensando assim, então podemos afirmar que todos os clientes que não pagam o valor esperado querem única e exclusivamente lucrar “explorando” nosso trabalho. Certo? Errado. Assim como tradutores têm suas despesas, os clientes (em especial intermediários, como agências) também precisam pagar suas contas, manter seus funcionários internos, atualizar ferramentas/instalações de trabalho, contratar profissionais terceirizados etc. Como resultado, o valor cheio pago por um cliente direto pode sofrer reduções drásticas até chegar às mãos do tradutor que aceita trabalhos de um intermediário. Tudo bem, é óbvio que você vai lidar com muita gente mal-intencionada por aí; mas também não se vitimize pensando que o mercado está repleto de lobos devoradores de dinheiro.
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Resumindo: se o cliente já conhece todos os pormenores do processo de tradução e continua oferecendo um valor muito abaixo das suas expectativas, tire seu time de campo. No entanto, se você sentir que ele é um bom cliente, seja honesto e procure sair de cena educadamente, explicando que no momento o valor pago não atende a suas necessidades. Saia, mas não feche a porta de vez; no melhor dos casos, o cliente que hoje não paga o que você espera pode dar uma reviravolta e contratar seu trabalho por um valor muito mais justo no futuro.

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