Jogo dos 7 erros

  • 3

Jogo dos 7 erros

Na semana passada, postei na página do TransMit no Facebook um infográfico simples sobre os tipos de erro mais frequentes desses primeiros quatro meses de atividade. Como prometi um detalhamento desses erros em forma de texto (e como promessa é dívida), aqui estão eles e algumas sugestões de medida corretiva. Posso apostar que você já se deparou com pelo menos um desses monstros em algum momento da sua vida profissional. Vamos a eles?

Problemas textuais

Português
Os erros básicos de português continuam sendo os grandes vilões dos textos. Sim, básicos mesmo, como problemas de ortografia e escorregadas dispensáveis de concordância. O chato desse tipo de problema é que ele expõe demais a fragilidade e a falta de cuidado com o texto, já que não é necessário alto grau de conhecimento linguístico nem formação acadêmica em Letras ou afins para identificá-lo. Em suma, qualquer leitor minimamente atento perceberá a presença desagradável daquele erro gritante e inconveniente no texto, e a credibilidade do seu trabalho de tradução e revisão pode ser muito prejudicada por isso.

Por outro lado, a parte “boa” desses erros é que eles são relativamente fáceis de corrigir: basta usar o corretor ortográfico e gramatical (F7) sempre, em todo e qualquer material escrito que você enviar ao cliente. Esse procedimento não garante 100% de qualidade, pois pode acontecer de o corretor não identificar um erro ou outro, mas certamente ele fará uma boa limpa na tradução. Aliás, “material escrito” não envolve somente o arquivo a ser traduzido, mas também suas mensagens de e-mail e qualquer outro texto que você venha a escrever para o cliente. Além do mais, uma lidinha (mesmo que rápida) na sua própria tradução também fará milagres por você. Seja como for, tenha em mente que um bom tradutor não pode mais se deixar fragilizar por erros tão básicos de português.

Se você tiver dúvidas sobre como configurar a correção ortográfica na sua ferramenta, a Ccaps preparou uma compilação bem interessante de links que podem ajudar. Acesse esse conteúdo aqui.

Inglês
No inglês, o maior problema tem sido a decodificação dos sintagmas. Por mais simples que pareça, a boa e velha inversão das estruturas oracionais ainda é desafiadora em segmentos mais complexos, com três ou mais sintagmas. Para ilustrar, um exemplo: em um termo simples, como removal cost, respeitamos a inversão de ordem e traduzimos corretamente como “custo de remoção”. Porém, no contexto de uma frase mais longa, muitos tradutores ainda se confundem e acabam empregando a forma inadequada “remoção de custo”. Além disso, no processo do ir e vir de inglês para português, naturalmente nos distraímos e acabamos omitindo e adicionando palavras, o que acontece ainda mais vezes com quem usa e abusa do Ctrl+C / Ctrl+X / Ctrl+V.

A medida corretiva para esses dois problemas é o exercício constante do cotejo de um texto traduzido. Ou seja, é necessário dedicar um bom tempo, além de esforço, para comparar cada frase traduzida com sua correspondente no texto original e ver se houve perda ou inversão de alguma parte importante da estrutura (palavras omitidas, traduções que não correspondem ao termo em inglês etc.). Esse exercício é naturalmente lento e requer muito esforço no início, como toda prática, mas aos poucos você se acostumará a conviver com esse procedimento de qualidade na sua rotina de trabalho.

Vale mencionar que nem todos os prazos vão permitir um processo tão acurado de cotejo do texto. Ainda assim, comece fazendo esse exercício em textos menores e tente negociar prazos mais confortáveis com seu cliente. Além do mais, você pode fazer o cotejo durante a tradução ou após traduzir o texto todo. Aos poucos, você mesmo descobrirá o modo de trabalho mais eficiente para o seu perfil.

Problemas emocionais

Autoconfiança
Algumas pessoas buscam o TransMit como forma de confirmação de sua capacidade de traduzir, e não há problema nisso. O grande erro dessas pessoas é começar o treinamento achando que vai ser fácil. Ao se deparar com os desafios propostos, esse perfil confiante começa a desvanecer e vai dando lugar ao pé no chão; nos piores casos, isso resulta em frustração e desânimo.

A essas pessoas, digo e repito o mesmo (sempre!): o TransMit é um espaço desenvolvido especificamente para o erro, e nosso objetivo é oferecer cenários complexos justamente para sabermos como o tradutor vai lidar com “o caos”. Portanto, errar é mais do que normal e esperado. De mais a mais, se o tradutor consegue identificar os erros com a gente, muito provavelmente ele estará preparado para não repeti-los em uma situação real com um cliente de verdade. Resumindo: o melhor lugar para errar é aqui.

Baixa autoestima
Diante da confiança abalada, algumas pessoas já entendem de imediato que precisam seguir em frente com mais humildade. Por outro lado, há aquelas que se deixam derrotar por um feedback não tão bom quanto esperavam, dando muita margem para a baixa autoestima. Nesses casos é preciso entender que, por mais experiência que se tenha, errar é humano. Portanto, em vez de lamentar os problemas acontecidos e chorar o leite derramado, é preciso pensar em estratégias para que eles não voltem a acontecer, e ajudar você a fazer isso é uma das principais funções da equipe do TransMit.

Ansiedade
Outra marca emocional de alguns tradutores é a ansiedade. Ela pode se refletir em um simples friozinho na barriga antes de ler o feedback ou, em alguns casos mais intensos, na sensação de incapacidade profissional. À primeira vista, alguns tradutores ansiosos se desesperam diante de textos que julgam desconhecer e acabam recuando diante do desafio. Também há casos em que o tradutor simplesmente desiste da tradução, mas que, depois de alguma insistência nossa, consegue esfriar a cabeça e acaba fazendo um trabalho melhor do que o esperado.

A medida corretiva para isso é: respire, conte até dez e, se o prazo permitir, vá espairecer antes de começar o trabalho. Tome uma xícara de café, passeie com o cachorro, faça um cafuné no gato, assista a uma série interessante na TV e procure relaxar. Feito isso, você estará muito mais tranquilo para assimilar o desafio sem aquele susto do primeiro momento.

Medo

Todo mundo sabe que uma pequena dose de medo não faz mal a ninguém. Aliás, é até bom contar com esse medinho para manter os pés na realidade, sem querer alçar voos muito altos. Ainda assim, algumas pessoas se prendem demais ao medo de dar passos maiores e tendem a ficar paradas onde estão. Mesmo depois de serem avaliadas por nós como aptas a trabalhar com agências, por exemplo, elas ficam receosas ao enviar os currículos e fazer novos testes por medo de não serem aprovadas.

Em geral, essa característica está relacionada à busca pelo “100%”. Esses tradutores acreditam que podem sempre melhorar (até aí, tudo bem), mas querem fazer novos cursos, treinamentos, comprar outras ferramentas e investir em mais formação para estarem 100% preparados. Pura ilusão. A verdade é que o 100% não existe, mesmo para quem já carrega anos de experiência nas costas, porque todo dia vamos nos deparar com um novo assunto e levar novas rasteiras de problemas desconhecidos, pequenos inconvenientes cotidianos de que nenhum curso poderá nos poupar. É assim e sempre será, mas isso só vai acontecer com quem aceitar esse fato e se jogar de peito aberto no mercado de trabalho.

Problemas ferramentais

Lamentavelmente ainda é grande o número de tradutores que investe em uma ferramenta, mas não consegue aproveitar por completo o que ela tem a oferecer. Muitas vezes isso se deve à falta de conhecimento técnico ou até mesmo ao conformismo de ter aprendido as tarefas essenciais, sem querer explorar melhor outros recursos que podem aprimorar o trabalho. Portanto, é comum conhecermos tradutores que nem sequer sabem que suas CAT Tools têm ótimos recursos de glossários, bases terminológicas e até mesmo listas personalizáveis de palavras permitidas/proibidas.

Depois de sondar um pouco melhor o assunto nos grupos de tradução do Facebook, foi possível perceber que nem todas as pessoas conseguem absorver bem as instruções de manuais escritos e tutoriais em vídeo, por mais simples que esse tipo de conteúdo possa parecer. No fim das contas, vimos que um determinado perfil de tradutores aprende muito melhor e mais rápido quando recebe orientação profissional especializada.

A medida corretiva do TransMit para isso ainda é segredo, mas posso adiantar que será bem interessante. Já estamos preparando um conteúdo excelente aqui nos bastidores para lidar com essa dificuldade, e prometo revelar tudo assim que estivermos com uma boa estrutura de atendimento a essa questão. Por enquanto, vamos deixar você na curiosidade…

Por fim, se você lembrou de mais alguma dificuldade típica da área de tradução ou até mesmo de algum problema pessoal que costuma pegar no seu pé com frequência, fique à vontade para deixar seu comentário. Quem sabe a gente não ajuda você a pensar em uma medida corretiva interessante?


3 Comments

Caroline Alberoni

abril 28, 2016at 3:16 pm

Olá, Mit!

Muito boa a sua análise geral dos problemas mais comuns dos tradutores!

O português, na minha opinião, é o pior deles. Os tradutores focam tanto em aprender o idioma de saída que se esquecem que precisam também aprimorar o idioma de chegada, tão menosprezado! Se dependermos apenas das aulas de português que tivemos na escola, não sobreviveremos. E falo por mim, viu? Mas, além de erros de português em si, o pior, realmente, também na minha opinião, é entregar texto sem passar o corretor. É o mínimo! E aqui adiciono: espaçamento. As ferramentas geram arquivos cheios de espaçamentos duplos. O recurso “Substituir” do Word está aí para resolver isso.

Também acredito que a autoconfiança seja um sério problema. O tradutor se acomoda no que acredita ser seu conhecimento avançado e não pesquisa, não fica com aquela pulga atrás da orelha, não confirma, resultando em erros básicos de tradução. Preguiça de pesquisar e confirmar se a escolha certa é realmente aquela.

Outro grande problema é ficar preso ao texto de origem e à estrutura dele: uso de letras maiúsculas e minúsculas, forma verbal, pontuação, etc.

Eu, particularmente, adoro feedback. Afinal de contas, é com ele que aprendo. Caso contrário, como saberei se estou no caminho certo ou não? Mas vejo que as pessoas têm dificuldade em aceitar feedback, sim. E vejo isso pelos meus clientes. Eles ficam admirados com a minha resposta a feedbacks. Sempre os leio com atenção, tento entender o erro, assimilar o que está realmente errado, perguntar sobre o que eu tenho dúvida e contestar o que eu acredito que esteja certo. Nossa, a diferentona! Aí é que está: não! Isso é minha obrigação. E se o cliente se admira com isso é porque a coisa está feia! Grande parte do que sei hoje e aprendi se deve a feedbacks de clientes.

Por fim, eu não sou a especialista em CATs, mas, se eu tenho dúvida, pergunto.

Resumo da ópera: todos nós, independentemente do nível (estudante, iniciante, estabelecido, avançado, dinossauro), sempre temos muito a aprender. Como você mesma disse: ninguém é 100%. Ninguém. Ninguém é Deus, detentor de toda a sabedoria do mundo. Sábio é, sim, aquele que sabe reconhecer seus erros e suas fraquezas e tenta encontrar formas de remediá-los.

Bjinho

Fernando Maciel

junho 24, 2016at 5:02 pm

Ótimo texto, Mit.

Seus comentários só aguçaram minha curiosidade e vontade de participar do TransMit.

Obrigado.

    Mitsue Siqueira

    junho 24, 2016at 7:47 pm

    Que bom que gostou, Fernando, já vai começar com vantagem! 😀

Leave a Reply

Ad