Quando o melhor cliente não é o que paga mais

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Quando o melhor cliente não é o que paga mais

Terminada a minha palestra no VII Congresso da Abrates, que este ano foi no Rio (e foi sensacional!), muita gente se impressionou com a minha “coragem” de dizer que a agência em que trabalho não paga bem, principalmente com o chefe ali na plateia. O problema é que não há nada de coragem nisso, pois trata-se de apenas um fato mais velho do que a minha (e provavelmente a sua) tetravó. Como assim não paga bem? Explico.

Como em toda relação de compra e venda, seja em tradução ou não, quanto mais mediadores se tem, menos se ganha. A fórmula é muito simples: se o cliente final tem o orçamento de 0,50/palavra e se você consegue negociar diretamente com ele, esse valor cheio é todo seu. No entanto, se a comunicação entre vocês é mediada por uma ou duas agências, essa pizza é repartida entre todos, e nem sempre você fica com aquele pedaço gostoso que tem pepperoni.

Aliás, isso não é novidade. Como já comentei, a fórmula é típica de toda relação de negócios, seja de qual área for. Portanto, não se assuste se uma agência de tradução não quiser ou não conseguir pagar o valor que você quer ganhar. Por melhor que você seja e por mais que eles te adorem, tenha em mente que uma empresa deve arcar com vários custos e impostos, que não são poucos e que ficam cada vez maiores dependendo do porte. Ok, a pergunta que surge agora é: sabendo disso, vale a pena trabalhar com agências? É aí que entram dois números de que gosto muito.

0% e 91%

Por mais que a ideia pareça tentadora (e até muito óbvia), não pense que os próximos parágrafos foram escritos por uma puxa-saco de carteirinha. Procure pensar que eles foram escritos por alguém cuja única experiência pessoal aconteceu em apenas uma empresa, a Ccaps. Para quem não conhece, vai uma apresentação rapidinha: a Ccaps é uma prestadora de serviços linguísticos que atua principalmente no mercado latino-americano, fornecendo traduções nos idiomas inglês, português e espanhol (e outros, mas com menos frequência).

Bom, vamos aos números. Esse 0% se refere a nada mais nada menos do que o índice de inadimplência da empresa. Traduzindo: essa é a quantidade de calotes que a Ccaps já deu em 15 anos de mercado. Vamos combinar que, em um país caloteiro como o nosso (e não só aqui), trabalhar com uma empresa que nunca atrasou um pagamento de seus tradutores externos nem dos funcionários internos é um luxo. Diga-se de passagem, esse 0% só foi possível porque a Ccaps conta com um departamento financeiro muito bem preparado para sanar toda e qualquer dúvida que os tradutores venham a ter. Não recebeu a PO ainda? Não entendeu aquele somatório de valores? Não está conseguindo emitir uma nota fiscal, sabe-se lá por quê? Entre em contato e eles sempre respondem.

Dito isso, vamos partir para o segundo número, o nosso 91%, do qual também me orgulho muito. Esse é o índice de satisfação dos tradutores, que, aliás, cresceu em cerca de cinco pontos percentuais nos últimos três anos (sim, é coisa à beça). Traduzindo: apesar de a Ccaps nem sempre pagar o valor que todo tradutor gostaria de receber, nossos tradutores estão muito satisfeitos por trabalhar com a gente.

Esse número é extraído das pesquisas de satisfação que a Ccaps faz no fim de cada ano, desde 2013. Com elas, os tradutores têm total liberdade para avaliar cada departamento da empresa, apontar os defeitos, dizer se houve falhas de comunicação, atendimento, pagamento etc. Em suma, é uma oportunidade e tanto de botar a boca no trombone.

Além disso, assim como na parte financeira, a Ccaps conta com um departamento linguístico (do qual eu faço parte) que trabalha para enviar feedbacks constantes aos tradutores, procurando desenvolver o desempenho deles, em vez de simplesmente descartá-los e partir para outra. Também suamos a camisa para criar um material complementar de auxílio a tradutores novos (um guia bacanérrimo de boas-vindas), além de guias de estilo, glossários, bases terminológicas e até mesmo do suporte ao uso de ferramentas. Uma parte desse material fica disponível bem aqui.

E para você não ceder àquela tentação inicial de me achar puxa-saco, vou aproveitar e dizer algo que passarinhos verdes e confiáveis me contaram no congresso: ao que parece, uma outra agência semelhante, a Wordlink, tem um ambiente de trabalho excepcional para estagiários. Não posso afirmar isso por experiência própria, mas conheço algumas pessoas da equipe e, de fato, elas parecem ser muito acolhedoras.

Afinal, vale a pena trabalhar com agências?

Não posso responder por você, mas me diga: então, acha que vale? Sou da opinião de que nenhum dinheiro no mundo paga minha paz de espírito, então minha resposta é sim, mas não com qualquer agência. No caso da Ccaps, por exemplo, já ouvi vários tradutores dizerem que priorizam trabalhar conosco porque “vocês nunca me deram dor de cabeça”. Então, acho que receber menos do que aquele valor cheio do cliente direto acaba compensando em alguns casos.

Isso sem falar que o trabalho com o cliente direto pode envolver várias outras tarefas que não apenas tradução. E se ele enviar um formato de arquivo que exija DTP? E se a sua ferramenta travar por causa daquele erro bizarro e você não conhecer engenheiros que possam resolver o problema? Você vai conseguir absorver essa tarefa? Em alguns casos o tradutor precisa assumir duas ou até três funções, e muitas vezes os iniciantes se desesperam ao ter que lidar com essa demanda.

Isso não quer dizer que todo cliente direto é complicado, mas em geral eles precisam, sim, de mais orientação do que uma agência estruturada. Aliás, pode acontecer de você esbarrar em algumas agências enroladíssimas também, então acaba sendo muito relativo. Ah, e não fique achando que todo e qualquer cliente direto vai pagar sempre rios e mais rios de dinheiro, viu? Não espere virar o Trump brasileiro só porque você atende a vários clientes diretos.

Enfim, seja como for, ao fazer sua pesquisa de clientes em potencial não deixe de pensar nesses aspectos. Será que os funcionários daquela empresa são confiáveis? Eles parecem saber o que estão fazendo, ou são enrolados/enroladores? A comunicação com eles fluiu, ou foi confusa? Os textos do site são bem escritos (sim, isso é importantíssimo nas empresas de tradução!)?

Trabalhe para minimizar as chances de a sua cabeça doer, seja por causa de calotes, tarefas impossíveis ou prazos inalcançáveis. Se o cliente (agência ou direto) paga bem, mas tem cheiro de estresse, ansiedade, aborrecimento ou preocupação, faça o cálculo e veja se compensa. Se não, corra e tente procurar outros que deem mais sossego. No fim das contas, cedo ou tarde você vai perceber que dinheiro nenhum compra aquele soninho tranquilo à noite.


8 Comments

Erio Donnamaria

junho 9, 2016at 3:23 pm

Oi Mitsue, você não poderia ter sido mais clara e objetiva, você foi direto aos pontos chave, e muito simpática nos seu comentários sobre a Wordlink. Um beijo.

    Mitsue Siqueira

    junho 9, 2016at 4:27 pm

    Eu que agradeço, Erio! Quanto ao meu comentário, nada mais justo do que recomendar empresas das quais ouço falar bem. A César o que é de César 😉

Rosane Neves

junho 9, 2016at 3:50 pm

Estava conversando com a Janayna exatamente sobre isso no Congresso, Mit: custo-benefício! Hoje eu me dou ao luxo de trabalhar com três agências que não me dão dor de cabeça. São pessoas com quem eu gosto de trabalhar e que, acredito, também gostam de trabalhar comigo.
Ao longo do tempo, fui abrindo mão daquelas agências que pagavam abaixo do valor médio para o meu grau de conhecimento, que atrasavam o pagamento ou que queriam trocar seis por meia dúzia nos feedbacks, geralmente feitos por quem não tinha nem 1/10 da minha experiência.

    Mitsue Siqueira

    junho 9, 2016at 4:31 pm

    E esse deve ser o pensamento, Rosane, progredir. Com o passar do tempo, a gente precisa buscar clientes cada vez melhores e que nos satisfaçam também (não é só o tradutor que precisa agradar o tempo todo). Percebo que os iniciantes ainda têm dificuldade de enxergar que, em algum momento da vida profissional, é saudável se desapegar dos clientes “rasos” e alçar voos mais altos. É um movimento bem lento nos primeiros anos, mas é necessário.

Juliana Gasparin

junho 9, 2016at 8:39 pm

Mitsue, adorei o resumo que fez da palestra. Obrigada! 🙂
Para nós que ainda não começamos a trabalhar na área, é ótimo ler essas avaliações sobre o trabalho com agências, pois ouvimos muitas coisas que não correspondem à realidade por partir de uma generalização de uma experiência que deu errado. Bom saber que existem agências sérias como a Ccaps. E respondendo a pergunta: eu acho que vale a pena sim, dependendo da empresa. Ainda mais para iniciantes. Como você bem disse, várias funções que precisaríamos executar sozinhos e não temos ideia de como fazer são realizadas pela agência, evitando muita dor de cabeça. E certamente é uma forma de aprendizado muito rica para nós.

    Mitsue Siqueira

    junho 9, 2016at 10:45 pm

    Juliana, se todo iniciante tivesse a chance de fazer um estágio ou uma orientação com agências bacanas, você pode ter certeza de que o mercado seria muito, mas muito diferente (pra melhor). É uma pena que ainda haja tanta dificuldade de arrumar oportunidades nesse sentido…

Juliana Gasparin

junho 9, 2016at 9:06 pm

Um adendo: dei uma olhadinha no guia de estilo da Ccaps e adorei! Já salvei aqui no meu computador para consultar quando necessário. Tem dicas ótimas. 😉

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