Meus procedimentos básicos de qualidade

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Meus procedimentos básicos de qualidade

Desde que comecei a trabalhar com revisão, convivo com tradutores muito experientes e com aqueles que estão começando agora, e nos dois grupos percebi algo em comum: muita gente boa erra bobeira por pura falta de atenção. A questão nem é cometer erros por distração (isso todo mundo comete), pois quem traduz sabe que é muito fácil escorregar nos detalhes; o grande problema está em não pensarmos em procedimentos que ajudem a resolver essa situação.

Esses procedimentos são tarefas menores, etapas complementares que deveriam ser sempre realizadas no processo de TEP (Translation > Editing > Proofing), e a elas eu costumo chamar de verificações finais. Por exemplo, quando recebo um arquivo para revisão, a primeira coisa que eu faço é dar conta de todas as verificações finais do texto. Por mais que seja estranha essa ideia de começar pelo final, a intenção é avaliar se o tradutor fez o que se esperava dele no fim da tradução. Ou seja, nesse primeiro contato com o texto, eu faço o QA da CAT Tool, uso o Xbench, colo a tradução em um arquivo vazio do Word (para verificação gramatical e ortográfica) e, por fim, faço a correção ortográfica de volta na CAT Tool.

Eu sei que escrevendo assim parece muito, mas na maioria dos casos não é. É claro que isso pode ser bem trabalhoso, dependendo da qualidade do texto recebido e da quantidade de palavras e arquivos do projeto, mas você não faz ideia de quantos erros eu consigo identificar só com esses processos praticamente mecânicos. Então, mesmo que o projeto seja grande, vale muito a pena dedicar um tempo a essas verificações.

Para entender melhor o propósito de cada uma delas, organizei um resumo sobre a importância desses procedimentos no meu cotidiano. Aliás, não uso essas diretrizes apenas quando eu tenho que revisar, mas também sigo sempre que termino de traduzir um projeto. Vamos a elas:

Etapa 1: QA e corretor da CAT Tool

A maioria das CAT Tools conta com um recurso de QA, e não, ele não está lá apenas para enfeitar a interface do usuário. É claro que a eficácia do QA das ferramentas varia, até porque umas têm verificações mais detalhadas do que as outras, mas todas elas ajudam a pescar os problemas que nossos olhos não viram.

Resolvidos todos os problemas que o QA identificou (geralmente erros de tag, espaçamento, numeração etc.), parto para primeira correção ortográfica. Em praticamente tudo que eu uso, o atalho do corretor é o F7. Depois de usá-lo e fazer mais essa rodada de correções no texto, saio do ambiente da CAT Tool e parto para o Xbench.

Etapa 2: QA do Xbench (e corretor)

Senhoras e senhores, é com muita alegria que apresento o Xbench a quem ainda não conhece. Diferentemente das CAT Tools, que são usadas para ajudar a traduzir um arquivo, o Xbench é usado apenas depois da tradução para verificar o arquivo bilíngue exportado. Essa lindeza tem uma versão gratuita, a 2.9 (disponível para download aqui), e já me ajudou a evitar muita saia justa. O Xbench faz uma série de verificações de qualidade, como possíveis problemas de terminologia, espaçamento, numeração, adição/omissão de tags, formatação… Enfim, todos esses detalhes pontuais que a gente costuma ignorar enquanto se concentra em outros aspectos da tradução.

A pergunta que você deve estar se fazendo é: “Mas se eu já fiz o QA na minha CAT Tool, por que preciso usar essa ferramenta?”. Minha resposta (um conselho, na verdade) é: “Porque você precisa ser neurótico”. Pode acreditar, a neurose de não confiar apenas no QA de uma ferramenta já me salvou de alguns resultados negativos que eu sei que cairiam no meu colo, se não fosse essa camada extra de segurança. Além do mais, dependendo do tamanho do arquivo (e da qualidade do texto), rodar o Xbench não vai tomar dois minutos da sua vida.

Muita gente não sabe, mas a versão paga do Xbench (a 3.0) trabalha também com correção ortográfica. Em outras palavras, além das verificações que a versão gratuita oferece, a paga também pode ajudar com a corrigir os erros de digitação do seu texto. Acesse este link para aprender a configurar o corretor no Xbench.

Etapa 3: olhômetro e corretor do Word

Passada a vassoura geral das etapas que você já viu, é hora de copiar somente a tradução e colar no Word para mais uma verificação, uma espécie de proofing, só que muito mais rapidinho. Ao contrário das etapas anteriores, que corrigem erros pontuais, a verificação no Word exige um pouco mais de atenção visual, principalmente porque os erros que ainda sobreviverem vão aparecer com um destaque vermelho (erros de ortografia) ou verde/azul (erros de gramática).

Mais uma vez, usar o Word para quê? Particularmente, acho essencial passar os olhos pelo arquivo traduzido fora da interface da ferramenta, de preferência com o zoom em quase 200%. Assim, eu permito que a minha cabeça descanse um pouco do visual da CAT Tool, o que me deixa mais atenta, já que estou trabalhando em um ambiente totalmente diferente, ainda que o texto seja o mesmo.

Se pudermos fazer isso no formato final do arquivo (PDF, PPT etc.), melhor ainda. Você vai se surpreender com a quantidade de alterações e melhorias que fazemos nesta etapa. Há quem goste de imprimir os textos e revisar no papel, mas nem sempre isso vai ser possível (imagine ter que revisar 2.000 páginas no papel?). No meu caso essa estratégia não funciona, mas acho que vale mencionar para contemplar o pessoal que consegue trabalhar textos pequenos com essa prática.

Finalizada a fase do olhômetro, é hora de passar o F7 no Word e seguir corrigindo o que for necessário, mas lembre-se: todas as correções que surgirem durante esta e as outras etapas devem ser feitas sempre no arquivo bilíngue da ferramenta! Afinal de contas, na maioria dos casos é o arquivo bilíngue que o cliente pede de você.

Etapa 4: corretor da CAT Tool

Por favor, não pense que estou maluca, mas você leu isso mesmo. Depois de ter percorrido todo esse caminho, minha última verificação de qualidade é voltar ao ponto de partida e passar o corretor ortográfico na CAT Tool novamente. Prefiro SEMPRE deixar a correção ortográfica para o final, e a explicação é muito simples: enquanto a gente foi corrigindo vários pedaços do texto durante as outras verificações, quem garante que não inserimos novos erros? Então, para não deixar aquele problema horrendo de digitação escapar depois de tanto esforço, eu passo o F7 novamente na CAT Tool.

Pronto, agora acabou, juro. Quer dizer, acabaram as etapas básicas do pós-tradução, porque tudo isso consiste só em uma varridinha na casa de quem vai revisar o texto mais a fundo. E claro, essas são as etapas que eu costumo usar, a ordem na qual eu me sinto mais confortável para trabalhar, mas pode ser que você prefira seguir procedimentos diferentes de outra maneira.

Seja como for, o grande objetivo deste post é fazer você pensar criticamente na qualidade do seu próprio trabalho. Será que você está fazendo o máximo possível para não vacilar? Caso não tenha o hábito de fazer verificações de qualidade, sinta-se livre para usar esse conteúdo como ponto de partida. Se você já segue algum procedimento diferente, compartilhe comigo aqui no campo de comentários e vamos ser neuróticos juntos.

P.S.: não se iluda. Por mais que a gente siga tudo isso bonitinho, volta e meia Titivillus aparece pra dar um “oi”…


4 Comments

Sieni Maria Campos www.sienicampos.com.br

agosto 30, 2016at 12:10 pm

Mit, sou tradutora há trinta anos e não conhecia o Xbench. Agradeço as informações super úteis e, ainda mais, a oportunidade de aprender. Vou aplicar sistematicamente.

Marco Antonio

agosto 30, 2016at 4:28 pm

Muito bom. Grato pelas preciosas dicas.

Tradutor e CAT Tool: uma relação de responsabilidade e equilíbrio – Projeto TransMit

janeiro 10, 2017at 3:52 pm

[…] inteiramente de responsabilidade sua. Dedique um tempo ao texto, faça as verificações de praxe (a Mitsue já falou sobre isso), estude mais e seja o melhor tradutor que você pode ser. Por mais que estejamos vivendo um […]

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