Author Archives: Mitsue Siqueira

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Clientes de qualidade

Com base na minha experiência em tradução (ainda pouca, mas razoavelmente relevante) e no que vejo por aí no mercado, percebi que muitos problemas de qualidade se devem à desinformação e à má comunicação entre as partes envolvidas no processo de tradução. Como uma dessas muitas pontas soltas é o cliente, o post que você vai ler agora aborda alguns percalços bastante comuns no relacionamento entre os tradutores e seus clientes. Vamos a eles:

Perdoe, eles não sabem o que fazem

Você precisa partir do pressuposto de que, na maioria das vezes, seu cliente não conhece o mercado de tradução. Portanto, cabe a você informá-lo de que esse trabalho vai muito além de meramente reproduzir as palavras de um idioma no outro (isso o Google Translator já faz bastante bem). Ou seja, o cliente pode oferecer tarifas muito menores do que o valor esperado por desconhecer o mercado da tradução e por não saber que o ato de traduzir é complexo, e na verdade ele não tem obrigação de saber isso logo de cara.
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Sendo assim, se um cliente oferecer um trabalho e propuser um valor que você considera muito baixo por ele, recuse. No entanto, vá além de simplesmente recusar e informe-o, mostrando que a sua função envolve pesquisa terminológica, manutenção de glossários e memórias de tradução, uso de ferramentas caras e outras atribuições, e que tudo isso demanda mais tempo do que se imagina.
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Ao fazer isso, você mostra que reconhece o valor do seu próprio trabalho e o cliente percebe que não está lidando com um profissional qualquer. Além do mais, são grandes as chances de você conquistar um cliente sério que esteja disposto a pagar um valor justo por um trabalho de qualidade. Ao plantar informação, muito provavelmente você colherá bons frutos de confiança.

Ok. Eu dei a mão, mas agora ele quer o braço

Outro problema bastante comum (também relacionado à desinformação) é o cliente que demanda escopos diferentes por um preço único. Cada vez mais vejo tradutores reclamarem de clientes que enviam arquivos escabrosos com tarefas complexas de DTP, por exemplo, mas querendo pagar apenas o valor de um trabalho  de tradução.

Novamente, para evitar estresse, dê uma de João sem braço e parta do pressuposto de que seu cliente não sabe muito bem o que está pedindo. Informe que tradução e DTP (ou qualquer outra atividade adicional envolvida) são tarefas muito diferentes, que exigem esforços diferentes, ferramentas diferentes e até mesmo profissionais diferentes. Se entender isso e valorizar seu trabalho, ele certamente não verá problema em pagar um valor maior e mais justo pelos dois serviços. Daí em diante, cabe a você avaliar se quer terceirizar a tarefa ou se você mesmo já tem conhecimento para assumi-la.

E se o meu cliente já souber de tudo isso, mas continuar oferecendo um valor baixo pelo meu trabalho?

De todos, esse é o caso mais difícil. Se o cliente já conhece todo o processo e continua oferecendo um valor muito baixo pelo trabalho, repense a parceria com ele. Eu sei que isso é complicado no caso de tradutores iniciantes, que ainda não podem se dar ao luxo de recusar clientes. Nesse caso, o iniciante pode aproveitar a oportunidade de trabalho com esse cliente para exercitar a prática da tradução e ganhar mais experiência até amadurecer o bastante para bater asas e voar em busca de outros que paguem melhor.
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Pensando assim, então podemos afirmar que todos os clientes que não pagam o valor esperado querem única e exclusivamente lucrar “explorando” nosso trabalho. Certo? Errado. Assim como tradutores têm suas despesas, os clientes (em especial intermediários, como agências) também precisam pagar suas contas, manter seus funcionários internos, atualizar ferramentas/instalações de trabalho, contratar profissionais terceirizados etc. Como resultado, o valor cheio pago por um cliente direto pode sofrer reduções drásticas até chegar às mãos do tradutor que aceita trabalhos de um intermediário. Tudo bem, é óbvio que você vai lidar com muita gente mal-intencionada por aí; mas também não se vitimize pensando que o mercado está repleto de lobos devoradores de dinheiro.
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Resumindo: se o cliente já conhece todos os pormenores do processo de tradução e continua oferecendo um valor muito abaixo das suas expectativas, tire seu time de campo. No entanto, se você sentir que ele é um bom cliente, seja honesto e procure sair de cena educadamente, explicando que no momento o valor pago não atende a suas necessidades. Saia, mas não feche a porta de vez; no melhor dos casos, o cliente que hoje não paga o que você espera pode dar uma reviravolta e contratar seu trabalho por um valor muito mais justo no futuro.

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VI Congresso de Tradução e Interpretação da Abrates

Depois de falar sobre a relação tradutor-revisor em 2013 e, no ano passado, sobre o panorama de atribuições e cargos de uma empresa de tradução, decidi que agora é hora de oferecer ao público do congresso da Abrates um bate-papo interessante sobre uma função que (pasmem!) muita gente ainda não conhece: o gerenciamento de projetos.
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Para falar sobre isso, nada melhor do que contar com a presença de um PM (Project Manager), certo? Portanto, este ano palestraremos eu e meu colega Bruno Fontes, que já gerencia projetos na Ccaps há cerca de dois anos. E sobre o que vamos falar? Em resumo, abordaremos questões como:
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> Quais são as características essenciais de um bom PM?
> O que diferencia PMs bons de PMs excelentes?
> O que um PM pode fazer para melhorar/facilitar a vida do tradutor?
Além dessas questões iniciais, falaremos sobre outros conceitos fundamentais, como comunicação (oral e escrita), negociação de prazos, escopo, confiabilidade, capacidade de resposta, disponibilidade… Enfim, teremos um pouquinho de quase tudo que julgamos necessário para estabelecer uma interação saudável e uma rotina organizada de trabalho.
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Se esses temas despertaram seu interesse, apareça! E se quiser sugerir mais algum tema ou fazer uma pergunta específica (aquela pergunta que todo mundo sempre quis fazer, mas nunca teve coragem…), envie um e-mail para [email protected]. Não deixe de participar! Seu tema e/ou pergunta pode ser selecionado e apresentado com um destaque todo especial na palestra.
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Confira aqui a programação do evento e já deixe nosso horário reservado na sua agenda. Até lá! 😉

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Ei, você aí que quer fazer Letras!

Muita gente espera o fim do ano chegar para botar ordem nas metas e objetivos do próximo ano, e isso pode incluir decisões como fazer uma faculdade, o que é ótimo. No mês de janeiro, três pessoas entraram em contato comigo querendo saber o que achei da faculdade de Letras, pois estão pensando em ingressar nessa área e gostariam de ter informações de um conhecido. Então, para não ficar repetindo o mesmo papo, decidi postar aqui um resumão da minha experiência na faculdade. Assim, qualquer pessoa interessada pode acessar essas informações a qualquer hora.
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Sou licenciada em Letras (inglês) pela Universidade Federal Fluminense, campus doGragoatá. Como a UFF tem quatro ou cinco campus praticamente coladinhos uns nos outros, acho importante mencionar que, se você fizer Letras, vai estudar no Gragoatá (campus lindo, com uma vista espetacular da baía de Guanabara).  Acho ótimo quando vejo alguém interessado em investir nessa área, e eu sou suspeita para falar, porque adoro e não me arrependi! Ah, importante: me formei em 2013. Então, mesmo que meu texto ainda sirva como uma orientação inicial, procure alguém que possa te dar informações mais recentes.
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Diferentemente dos cursos de bacharelado, o curso de licenciatura em Letras visa formar professores. Isso não quer dizer que você não possa seguir outros caminhos depois da formatura, como eu, que virei tradutora, mas o foco do curso é a formação docente. No meu caso, optei pelo curso de licenciatura com habilitação em inglês. Isto é, com a formação que tenho, posso dar aulas de português e inglês. No curso de licenciatura, você verá basicamente esses três grandes “blocos” de estudo: literatura, linguística ou pedagogia. Veja o que cada um deles pode oferecer:
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Literatura
Para quem ama ler (como eu!), as aulas de literatura são um prato cheio. Você vai estudar as principais obras literárias e vertentes históricas do Brasil e, se optar por um curso de língua estrangeira, também estudará as obras do país escolhido. No meu caso, como escolhi inglês, li muito sobre os movimentos literários nos EUA e na Inglaterra.
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É um curso maravilhoso para quem gosta de história, pois os aspectos históricos têm grande influência na escrita de cada época. Estudar literatura habilita a dar aulas sobre o assunto e, se você não tem interesse em lecionar, é possível trabalhar com pesquisas. Para isso, converse com os professores e procure integrar os grupos de estudo da própria faculdade. Envolva-se nas aulas, pergunte, discuta, questione e faça seu interesse ser notado. Conheço muita gente que fez isso e hoje trabalha em ótimas pesquisas universitárias.
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Linguística
Em resumo, a linguística consiste no estudo do funcionamento das línguas. Mais uma vez, se você escolher um curso de um idioma estrangeiro, estudará português e o idioma escolhido. Nesse ramo da faculdade de Letras, você vai ver muita gramática, ortografia, semântica, sintaxe, morfologia, fonética… Ou seja, trata-se do estudo de todos os aspectos formais do funcionamento da língua.
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A parte que mais gostei de linguística foi estudar as variantes do português no Brasil, quando fizemos análises muito interessantes dos sotaques, regionalismos e características de cada estado. Fiquei maravilhada também com uma matéria muito legal de morfologia, sobre a composição das palavras do latim ao português. Gostei demais. Nessa área, a melhor opção para quem não quer dar aula também é investir em pesquisas.
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Pedagogia
Finalmente, o ramo de estudo preferido de quem pretende dar aulas (não foi o meu caso rsrsrsrs). Apesar de não ter curtido tanto as aulas de pedagogia, já que minha intenção não era lecionar, não posso negar que achei as aulas bastante úteis. Nessas matérias, o aluno aprende a elaborar projetos educacionais a serem aplicados em sala, além de ver uma perspectiva histórica da educação no Brasil (e no país estrangeiro, caso você escolha um idioma estrangeiro).
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Além disso, é essa área que exige ao aluno uma determinada carga horária de estágio (desculpem, esqueci a carga horária exata 🙁 ). Isto é, além da teoria explicada nas salas de aula da faculdade, você terá uma oportunidade de colocar a mão na massa em uma situação real de sala de aula.
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Não sei como são as outras faculdades, mas a UFF todo ano oferece algum tipo de evento de Letras. Eles sempre organizam palestras, apresentações, exposições, simpósios, feiras de troca de livros e muito mais. Aos interessados, recomendo dar umas voltinhas pelocampus do Gragoatá (blocos B, C e D) para conhecer o ambiente e até mesmo ler os cartazes espalhados, que sempre trazem informações muito úteis sobre tudo.
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Curiosamente, minha área de atuação não é um dos fortes da UFF (ainda!). Hoje trabalho como tradutora em uma empresa de localização de software, e a UFF não oferece muitos cursos de tradução. Se não me engano, os poucos têm foco em tradução literária, apenas. Ainda assim, tive professores excelentes que contribuíram muito para o meu desenvolvimento como profissional de tradução, e aproveitei muito conteúdo relevante.
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Então, se você gosta de ler e escrever, se tem vontade de desenvolver o que já sabe sobre língua portuguesa ou algum outro idioma, se gosta de história e viaja com os grandes clássicos da literatura brasileira, aposto que você vai se sentir em casa fazendo Letras. Acesse o site da UFF, entre em contato com professores, pergunte a opinião de colegas que estudam ou já estudaram lá e seja bem-vindo! 🙂

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Pra bom perguntador, só perguntar não basta

Sou perguntadeira desde criança e acredito que as perguntas são uma bela fonte de discussão dos mais diversos temas. Então, decidi escrever este post porque vejo aos montes profissionais que não sabem fazer perguntas (e não estou falando só da área de tradução).

Na hora de enviar um questionamento, procure “mastigá-lo” e já deixar preparada uma resposta, em vez de só jogar a pergunta nua e crua para seu cliente/colega resolver. Não entendeu? Dê uma olhadinha nos dois exemplos abaixo e veja se esclareci:

  1. “Prezado cliente/colega, achei os termos A e B no seu material de referência. Qual eu uso?”
  2. “Prezado cliente/colega, achei os termos A e B no seu material de referência. Procurei priorizar o uso de A em tal caso por tal motivo, mas notei que B também pode ser usado. Você tem alguma preferência?” 

Viu? A primeira pergunta indica que você achou uma incoerência no material, mas não propõe uma solução. Resumindo, você viu que há um problema, mas a impressão que passa é a de que não houve esforço para resolvê-lo. Você apenas o identificou e jogou a batata quente para a outra pessoa.

Já a pergunta B soa muito mais elaborada e menos preguiçosa. Com ela, você mostra que buscou uma solução (“Procurei priorizar o uso de A”), oferece um argumento para sua escolha (“em tal caso por tal motivo”) e pede para o cliente/colega confirmar uma decisão já tomada. Ou seja, você ofereceu uma proposta de solução e ainda deixou uma abertura ao diálogo (“Você tem alguma preferência?”).

Felizmente, a maior parte das pessoas com quem trabalho sempre está muito disposta a responder e colaborar, o que só tem a contribuir para a melhora da qualidade do texto. Sendo assim, sugiro que a gente tome doses cavalares contra preguicite aguda e faça um mínimo de pesquisa antes de sair tascando perguntas rasas para todo mundo.

Pergunte apenas quando você realmente sentir que precisa de uma segunda opinião, e faça perguntas de maneira inteligente. Assim, o cliente/colega vai notar seu esforço e provavelmente se sentirá muito mais disposto a te ajudar a descascar seu abacaxi. 🙂


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Por que eu amo revisar?

Ontem foi dia do tradutor (viva, Jerônimo!), e muitos colegas fizeram postagens sobre os motivos pelos quais amam ser tradutores. É claro que eu também amo traduzir, mas curiosamente esse clima todo me fez pensar bastante nos meus motivos para amar ser revisora. Como não aguento esperar até março para expressar meu amor pela revisão, fiz um resuminho desses motivos e decidi postar hoje mesmo. Revisores de plantão, depois me digam se a energia que nos move é a mesma. Eis os meus motivos:

1- Fazer parte do desenvolvimento profissional dos colegas

O bacana de revisar frequentemente os textos de um determinado grupo de pessoas é ver o aprimoramento da qualidade das traduções delas; modéstia à parte, mais bacana ainda é saber que tem dedo seu nesse aprimoramento. Como sou responsável por enviar e registrar feedbacks detalhados dos tradutores quase diariamente, tenho em mãos todos os textos avaliados e todas as informações sobre os erros cometidos em cada amostra analisada (o que dá um corpus bem interessante). Ou seja, posso comparar a primeira tradução de um fornecedor com a última, e fico muito feliz em dizer que, na maioria dos casos, o progresso da qualidade é evidente.

2- Ganhar a confiança das pessoas avaliadas

O fator confiança depende muito da relevância e da argumentação das correções sugeridas. Isto é, se você sugere uma correção, explica o motivo de tal correção e de quebra ainda oferece um embasamento teórico (uma fonte de pesquisa ou uma referência confiável que confirme o que você acabou de dizer), suas chances de ganhar a confiança da pessoa avaliada são muito grandes. Resumindo: não dê o peixe; ajude a pessoa a aprender a pescar. Mostre o problema e explique de onde você tirou a solução.

Por outro lado, se suas explicações são vagas e seus argumentos nunca convencem, a pessoa avaliada terá toda a razão do mundo para desconfiar dos seus feedbacks. Portanto, caro revisor, trate de estudar o assunto e dar justificativas plausíveis para as alterações que você sugerir. Esqueça esse papo de “está errado porque eu não gostei” e siga em frente com argumentos fundamentados em regras e explicações decentes.

3- Trabalhar em colaboração com profissionais de outras áreas

Ser revisora não faz de mim uma especialista em petróleo e gás, engenharia mecânica, medicina odontológica ou astronomia, por exemplo. No entanto, volta e meia trabalhos dessas áreas podem cair no meu colo, e eu tenho que revisar. Mas eu sou formada em Letras, e aí? Não adianta, não tenho como fugir. Nesses casos, me restam duas opções: torcer para que o cliente tenha um belo glossário e fontes terminológicas excelentes ou torcer mais ainda para que eu possa entrar em contato com o tradutor.

Quando o contato com o tradutor não é possível, infelizmente o meu trabalho se resume a conferir se o glossário e as instruções terminológicas do projeto foram seguidas (além de fazer pesquisas e corrigir o português, claro). Entretanto, quando o tráfego na via revisor > tradutor está sem congestionamentos, eu aproveito para verificar minhas dúvidas com quem realmente entende do assunto.

Senhor revisor, atenção especial ao verbo verificar dúvidas. Se você não entende do babado, não faz sentido algum sair canetando o texto do tradutor, afirmando de cara que ele está errado. Faça uma listinha das palavras que te causaram estranheza por algum motivo e peça ajuda ao tradutor. Só um profissional formado no assunto poderá dizer se o seu desconfiômetro funcionou direito ou não. Ou seja, se você só tem formação linguística, “baixe a bola” ao revisar textos de outras áreas e não hesite em pedir a ajuda de especialistas.

4- Aprimorar meu conhecimento geral e me desenvolver como profissional

A parte boa de trabalhar com textos de várias áreas todos os dias é aprender um pouquinho com cada uma delas, o que é um prato cheio para o conhecimento geral. Se o item 1 fala sobre a participação do revisor no desenvolvimento dos avaliados, o objetivo deste item 4 é mostrar que muitas pessoas avaliadas também colaboram para o desenvolvimento do revisor.

Importante dizer que essa troca de informações não acontece somente nas áreas que desconheço, mas também na minha área de formação (Letras). Volta e meia aprendo uma regrinha nova de português, um macete interessante de gramática ou alguma dica que me ajude a nunca mais esquecer a regência escabrosa de algum verbo, e essas contribuições vêm justamente das pessoas que eu avalio. Essa é uma das muitas vantagens de estabelecer uma relação saudável de diálogo entre avaliador e avaliado: os dois lados só têm a ganhar.

Por fim, esses são apenas alguns dos motivos que me fazem amar minha profissão, e espero que você ame também, amigo revisor. Acredito de verdade que nossa função como avaliadores e “emissários de feedbacks” tem tudo para ganhar a confiança e a simpatia de muita gente. Basta tomarmos cuidado e as devidas precauções, mas isso é assunto para outro post.


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Enquete

Semana passada, postei a pergunta abaixo no Facebook:

Ao se deparar com um erro de português em um texto (texto mesmo, não comentário de FB) de um colega profissional de revisão, o que você faz?

  1. Faço vista grossa e fico indignado. Afinal, ele trabalha com revisão e não deveria escrever textos com erros.
  2. Faço vista grossa, mas entendo perfeitamente. Afinal, errar é humano. Pode acontecer com qualquer um.
  3. Entro em contato com ele e aviso que o texto está errado. Afinal, quanto antes ele corrigir, melhor.
  4. Quase morro de vontade de avisar que o texto está errado, mas não aviso. Afinal, vai que ele se ofende?
  5. Depende do erro. Se for uma mísera vírgula, não aviso. Se a mísera vírgula estiver entre sujeito e predicado, aí eu aviso.

Felizmente obtive várias respostas, mas naquele momento não entrei em detalhes nem quis dar muitas explicações sobre o motivo pelo qual fiz a postagem. Pois bem, explico.

Trata-se de uma experiência pessoal e, na minha opinião, bastante enriquecedora, já que rendeu como frutos uma postagem bastante ativa no Facebook e mais este post que você está lendo. Enfim, há algum tempo publiquei no meu blog um texto sobre gramática que tinha um erro de gramática. Imagine só, é uma situação superchata. Então, uma boa alma* entrou em contato comigo por meio de uma colega de trabalho, me alertando sobre o erro e sugerindo uma correção.

Sem pensar duas vezes, voltei correndo ao texto do blog e corrigi o problema. Acredito que não chegava a ser um erro tão aparente, visto que somente aquela boa alma* entrou em contato para avisar. Por outro lado, fiquei me perguntando se outras pessoas teriam percebido a existência do erro, mas, por um motivo qualquer (receio, vergonha, medo, sei lá…), decidiram não me avisar. E foi assim que nasceu a pergunta postada no Facebook.

Enfim, agora que já expliquei a gênese disso tudo, chega de blábláblá e vamos ao que eu acho de cada opção. Importante lembrar que a minha humilde opinião já estava pronta antes da postagem do FB. Ou seja, não fui influenciada pelos comentários de vocês.

1. Faço vista grossa e fico indignado. Afinal, ele trabalha com revisão e não deveria escrever textos com erros.

Bom, se a pessoa se diz profissional de revisão e trabalha o dia inteiro com textos, correções e ainda faz avaliações dos outros, teoricamente ela não deve escrever textos com erros. Não podemos negar: esse tipo de deslize é feio (sim), é chato (sim) e, se ocorrer com frequência, pode prejudicar (sim) a imagem do profissional da palavra. Ou seja, ele definitivamente não sai bem na foto.

2. Faço vista grossa, mas entendo perfeitamente. Afinal, errar é humano. Pode acontecer com qualquer um.

Ok. Mesmo trabalhando o dia inteiro com textos, correções e avaliações dos outros, o profissional de revisão é um ser humano que também está sujeito aos infortúnios da fadiga. Vai que ele não dormiu direito, ou que havia um bebê chorando ao lado, ou um parente doente… Enfim, acontece com todo mundo, não tem jeito. Além disso, por mais que a gente leia 50 vezes o mesmo texto, nossos olhos se cansam e nos enganam (aliás, quanto mais a gente lê a mesma coisa, mais os olhos enganam). Chegamos a um ponto em que simplesmente passamos despercebidos pelos erros. Isso acontece mesmo. Todo santo dia.

3. Entro em contato com ele e aviso que o texto está errado. Afinal, quanto antes ele corrigir, melhor.

Particularmente acredito que esta seja a melhor opção, principalmente se a sua relação com a pessoa que cometeu o erro for de amizade. No entanto, mesmo que você não seja amigo da pessoa, o grau de profissionalismo dela pode ser um bom parâmetro para fazer ou não contato com ela. Ou seja, se você sabe que a pessoa é racional e age com maturidade e profissionalismo, é possível considerar uma abordagem delicada, sutil e particular (um e-mail pessoal, a inbox do Facebook…) para uma sugestão de correção. Por outro lado, por mais que a intenção seja boa, ninguém está livre de entrar em contato com um jerico e receber uma voadora nas costas. O que nos leva à próxima opção.

4. Quase morro de vontade de avisar que o texto está errado, mas não aviso. Afinal, vai que ele se ofende?

Essa preocupação é totalmente relevante. Por mais que a nossa intenção ao indicar o erro seja boa, infelizmente há quem pense que a gente só quer criticar, colocar o dedo na ferida e expor a pessoa ao ridículo. Consequentemente, esse tipo de pessoa que reage de maneira tão negativa a um problema acaba repelindo possíveis contatos profissionais, além de desperdiçar contribuições bacanas, boas sugestões, ideias e críticas positivas.

5. Depende do erro. Se for uma mísera vírgula, não aviso. Se a mísera vírgula estiver entre sujeito e predicado, aí eu aviso.

Acredito que esta opção seja superválida para pessoas dispostas a considerar a relevância do erro e o impacto que ele causará no público-alvo. Vamos analisar o uso das vírgulas, por exemplo: um erro de vírgula entre sujeito e predicado certamente não tem o mesmo impacto que a ausência ou não da vírgula que diferencia as orações subordinadas explicativas das restritivas. Ou seja, se o erro da pessoa é algo muito básico e de grande visibilidade, vale a pena avisar o quanto antes. Por outro lado, se for um daqueles problemas que nossa professora de português se enrolou para nos ensinar na escola e que nem mesmo os gramáticos entendem direito, talvez avisar não seja tão primordial assim.

Bom, essa foi a minha humilde opinião sobre cada uma das opções, e eu gostaria de agradecer a todos que participaram e se envolveram comentando e respondendo a enquete no Facebook. Vi pessoas escolheram decididamente uma das opções, vi outras que escolheriam mais de uma, algumas apenas comentaram sem escolher… e, no fim, aprendi um pouquinho com todos. Se você não respondeu pelo Facebook, sinta-se à vontade para responder pelo blog mesmo, no campo “Deixe um comentário”.

Por fim, fica o meu agradecimento mais do que especial à boa alma* que entrou em contato comigo avisando sobre o erro. Boa alma*, fico muito feliz em saber que olhos atentos e cuidadosos como os seus andam lendo meu blog, e tenho certeza de que muitos outros profissionais aceitariam de bom grado “palpites” de pessoas como você .

*Se quiser que seu nome seja revelado, me avise!


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E lá vamos nós: V Congresso de Tradução e Interpretação da Abrates

Mãos frias e trêmulas, boca seca e uma vontade terrível de ser engolida pelo chão. Nos primeiros cinco minutos, então… é um horror. A gente arregala os olhos e gagueja, mas tem que manter a pose e seguir em frente, se apoiando na promessa de que os próximos minutos serão menos torturantes.

Não sei se isso acontece com todo mundo, mas a experiência de dar uma palestra foi assim para mim. Apesar desses pesares, o saldo foi tão positivo que decidi me arriscar de novo e, mais uma vez, a Abrates me deu essa chance. Pelo menos agora eu não vou sozinha! Chamei o Eduardo Gama para palestrar comigo, e ele topou gaguejar também: agora só nos resta ver no que vai dar.

Na palestra deste ano, cujo tema você pode ver aqui, a ideia é falar basicamente sobre estas três etapas pelas quais todo tradutor passa ao aceitar um trabalho da Ccaps:

1- Negociação com o gerente (PM, Project Manager): quando o gerente envia um trabalho, do que você precisa saber? Quais informações básicas você deve solicitar para aceitar o projeto? Se ele não especificar um prazo, como você deve se organizar? E se você sentir que o prazo estipulado está curto, e que você vai atrasar? O que fazer?

2- Recebimento e conversão dos arquivos: qual ferramenta você vai usar durante a tradução? É necessário exportar pacotes, importar TMs  e bases terminológicas, criar glossários? E se você tiver problemas para fazer tudo isso nos arquivos, a quem deve procurar?

3- Avaliação e resultados: a maior parte dos tradutores da Ccaps recebe ou já recebeu algum tipo de feedback/avaliação, em geral acompanhado por uma planilha de  LQA – Language Quality Assurance. Após dois anos de avaliações constantes, como está o panorama do nosso desempenho como tradutores? Quais são os problemas mais recorrentes (com exemplos)? Onde estamos errando mais? O que fazer para melhorar? E os pontos fortes, como aprimorá-los?

Enfim, gaguejando muito e tremendo bastante, eu e o Gama iremos abordar esses assuntos da melhor maneira possível, esclarecendo as dúvidas e tentando mostrar mais ou menos como é o dia a dia dos tradutores da Ccaps. Se a palestra for ruim, pelo menos você vai ganhar uma bala Juquinha e um chocolate (e quem me conhece já sabe que eu sou uma moça de palavra).

Se você já trabalha com a gente e ainda não nos conhece pessoalmente, não deixe de aparecer! Se você não trabalha com a Ccaps, mas gostaria de uma oportunidade, marque sua presença também. Nossa palestra será no dia 20 de setembro, às 15h45 (veja mais detalhes sobre o local e a sala aqui). E, claro, aproveite também as outras apresentações do congresso da Abrates, que promete ser muito bom, como sempre!


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Networking em congressos: antes, durante e depois

Engana-se quem pensa que fazer um bom networking em congressos, simpósios ou conferências limita-se apenas a aparecer no dia do evento distribuindo cartões de visita. Nem preciso dizer que a troca de cartões de visita é essencial, e que você deve levar quantos puder no dia do evento. Entretanto, o objetivo deste post é mostrar que o networking pode (e deve) ir muito além disso.

Primeiramente, é preciso considerar as ações a serem tomadas antes e depois, e não apenas durante o evento. Por isso, organizei algumas reflexões pessoais que podem ajudar você a fazer um networking ainda mais eficiente e inteligente daqui em diante:

Antes:

Acesse o site do evento, no qual certamente haverá o resumo de cada palestra (com data e horário) e uma biografia simples de cada palestrante. Assim, você já organiza sua agenda de antemão e tem uma boa noção dos assuntos que possam interessá-lo durante o congresso.

Caso haja alguma informação de contato dos palestrantes que mais chamarem sua atenção, fale com eles, apresente-se e explique o porquê do seu interesse em comparecer às apresentações deles. Dessa maneira, você os conhece antes mesmo de sair de casa e os motiva a fazer uma palestra ainda melhor.

Durante:

Preciso dizer para você providenciar cartões de visita? Você participará de um evento cheio de profissionais dispostos a compartilhar ideias e até mesmo oportunidades de trabalho. Como nesses ambientes há várias pessoas, é provável que muitas das quais conversaram com você não se lembrem “de cabeça” do seu contato após alguns dias, e por isso dar seu cartão de visitas é tão importante. Mas lembre-se: são cartões de visita, e não panfletos. Não saia distribuindo seus cartões a qualquer pessoa que aparecer pela frente, e procure direcionar seus contatos. Afinal de contas, se você traduz do francês para o inglês, talvez seu perfil não seja interessante para um cliente à procura de tradutores de chinês para português.

Outra bela maneira de fazer networking no dia do evento é mostrando-se ativo nas palestras, comentando e interagindo com os palestrantes e o público. Participe, não apenas assista. Pergunte e comente, mas faça isso de maneira inteligente. Evite comentários pobres, como o famoso “muito legal o que você disse!” e só. Argumente e explique por que motivo você gostou de algum trecho ou momento específico da palestra. “Muito legal o que você disse no slide XX, porque esse tipo de problema/situação acontece diariamente em agências/empresas/com freelas e poderia ser evitado se fizéssemos YYY”.

Depois:

Na maioria das vezes, após um evento muito esperado, nos sentimos empolgados e extremamente enriquecidos. As palestras nos enchem de conhecimento, os novos contatos podem gerar grandes oportunidades de trabalho e, de quebra, ainda fazemos amigos. E por que não compartilhar esse sentimento com as pessoas?

Reserve algumas horas um ou dois dias após o evento, pegue todos aqueles cartões de visita que você recebeu e entre em contato com as pessoas para dizer o quanto foi bom conhecê-las. Faça isso de maneira simples: duas ou três frases já são o suficiente para resumir a importância que o evento e o encontro tiveram para você. Aproveite esse momento também para dar outras informações de contato (aquelas que não couberam no cartão de visitas, sabe?). Dê seu Facebook, Twitter, Skype, LinkedIn e outros números de telefone, para que vocês mantenham o contato.

Por fim, procure agradecer aos organizadores do evento. Eu pessoalmente nunca organizei um evento (quem sabe um dia, se surgir um convite?), mas acredito que fazer isso é um grande desafio. Reunir palestrantes de várias partes do Brasil e do mundo, escolher o lugar ideal, organizar as salas e muitas outras tarefas inimagináveis está longe de ser fácil, e deve causar muito estresse. Por isso, não esqueça de que essas pessoas trabalharam duro para oferecer o melhor evento a você, e mostrar sua gratidão a elas pode ser bastante recompensador.

Por fim, depois de todas essas dicas, só me resta dar mais um conselho: divirta-se!


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