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Quando o melhor cliente não é o que paga mais

Terminada a minha palestra no VII Congresso da Abrates, que este ano foi no Rio (e foi sensacional!), muita gente se impressionou com a minha “coragem” de dizer que a agência em que trabalho não paga bem, principalmente com o chefe ali na plateia. O problema é que não há nada de coragem nisso, pois trata-se de apenas um fato mais velho do que a minha (e provavelmente a sua) tetravó. Como assim não paga bem? Explico.

Como em toda relação de compra e venda, seja em tradução ou não, quanto mais mediadores se tem, menos se ganha. A fórmula é muito simples: se o cliente final tem o orçamento de 0,50/palavra e se você consegue negociar diretamente com ele, esse valor cheio é todo seu. No entanto, se a comunicação entre vocês é mediada por uma ou duas agências, essa pizza é repartida entre todos, e nem sempre você fica com aquele pedaço gostoso que tem pepperoni.

Aliás, isso não é novidade. Como já comentei, a fórmula é típica de toda relação de negócios, seja de qual área for. Portanto, não se assuste se uma agência de tradução não quiser ou não conseguir pagar o valor que você quer ganhar. Por melhor que você seja e por mais que eles te adorem, tenha em mente que uma empresa deve arcar com vários custos e impostos, que não são poucos e que ficam cada vez maiores dependendo do porte. Ok, a pergunta que surge agora é: sabendo disso, vale a pena trabalhar com agências? É aí que entram dois números de que gosto muito.

0% e 91%

Por mais que a ideia pareça tentadora (e até muito óbvia), não pense que os próximos parágrafos foram escritos por uma puxa-saco de carteirinha. Procure pensar que eles foram escritos por alguém cuja única experiência pessoal aconteceu em apenas uma empresa, a Ccaps. Para quem não conhece, vai uma apresentação rapidinha: a Ccaps é uma prestadora de serviços linguísticos que atua principalmente no mercado latino-americano, fornecendo traduções nos idiomas inglês, português e espanhol (e outros, mas com menos frequência).

Bom, vamos aos números. Esse 0% se refere a nada mais nada menos do que o índice de inadimplência da empresa. Traduzindo: essa é a quantidade de calotes que a Ccaps já deu em 15 anos de mercado. Vamos combinar que, em um país caloteiro como o nosso (e não só aqui), trabalhar com uma empresa que nunca atrasou um pagamento de seus tradutores externos nem dos funcionários internos é um luxo. Diga-se de passagem, esse 0% só foi possível porque a Ccaps conta com um departamento financeiro muito bem preparado para sanar toda e qualquer dúvida que os tradutores venham a ter. Não recebeu a PO ainda? Não entendeu aquele somatório de valores? Não está conseguindo emitir uma nota fiscal, sabe-se lá por quê? Entre em contato e eles sempre respondem.

Dito isso, vamos partir para o segundo número, o nosso 91%, do qual também me orgulho muito. Esse é o índice de satisfação dos tradutores, que, aliás, cresceu em cerca de cinco pontos percentuais nos últimos três anos (sim, é coisa à beça). Traduzindo: apesar de a Ccaps nem sempre pagar o valor que todo tradutor gostaria de receber, nossos tradutores estão muito satisfeitos por trabalhar com a gente.

Esse número é extraído das pesquisas de satisfação que a Ccaps faz no fim de cada ano, desde 2013. Com elas, os tradutores têm total liberdade para avaliar cada departamento da empresa, apontar os defeitos, dizer se houve falhas de comunicação, atendimento, pagamento etc. Em suma, é uma oportunidade e tanto de botar a boca no trombone.

Além disso, assim como na parte financeira, a Ccaps conta com um departamento linguístico (do qual eu faço parte) que trabalha para enviar feedbacks constantes aos tradutores, procurando desenvolver o desempenho deles, em vez de simplesmente descartá-los e partir para outra. Também suamos a camisa para criar um material complementar de auxílio a tradutores novos (um guia bacanérrimo de boas-vindas), além de guias de estilo, glossários, bases terminológicas e até mesmo do suporte ao uso de ferramentas. Uma parte desse material fica disponível bem aqui.

E para você não ceder àquela tentação inicial de me achar puxa-saco, vou aproveitar e dizer algo que passarinhos verdes e confiáveis me contaram no congresso: ao que parece, uma outra agência semelhante, a Wordlink, tem um ambiente de trabalho excepcional para estagiários. Não posso afirmar isso por experiência própria, mas conheço algumas pessoas da equipe e, de fato, elas parecem ser muito acolhedoras.

Afinal, vale a pena trabalhar com agências?

Não posso responder por você, mas me diga: então, acha que vale? Sou da opinião de que nenhum dinheiro no mundo paga minha paz de espírito, então minha resposta é sim, mas não com qualquer agência. No caso da Ccaps, por exemplo, já ouvi vários tradutores dizerem que priorizam trabalhar conosco porque “vocês nunca me deram dor de cabeça”. Então, acho que receber menos do que aquele valor cheio do cliente direto acaba compensando em alguns casos.

Isso sem falar que o trabalho com o cliente direto pode envolver várias outras tarefas que não apenas tradução. E se ele enviar um formato de arquivo que exija DTP? E se a sua ferramenta travar por causa daquele erro bizarro e você não conhecer engenheiros que possam resolver o problema? Você vai conseguir absorver essa tarefa? Em alguns casos o tradutor precisa assumir duas ou até três funções, e muitas vezes os iniciantes se desesperam ao ter que lidar com essa demanda.

Isso não quer dizer que todo cliente direto é complicado, mas em geral eles precisam, sim, de mais orientação do que uma agência estruturada. Aliás, pode acontecer de você esbarrar em algumas agências enroladíssimas também, então acaba sendo muito relativo. Ah, e não fique achando que todo e qualquer cliente direto vai pagar sempre rios e mais rios de dinheiro, viu? Não espere virar o Trump brasileiro só porque você atende a vários clientes diretos.

Enfim, seja como for, ao fazer sua pesquisa de clientes em potencial não deixe de pensar nesses aspectos. Será que os funcionários daquela empresa são confiáveis? Eles parecem saber o que estão fazendo, ou são enrolados/enroladores? A comunicação com eles fluiu, ou foi confusa? Os textos do site são bem escritos (sim, isso é importantíssimo nas empresas de tradução!)?

Trabalhe para minimizar as chances de a sua cabeça doer, seja por causa de calotes, tarefas impossíveis ou prazos inalcançáveis. Se o cliente (agência ou direto) paga bem, mas tem cheiro de estresse, ansiedade, aborrecimento ou preocupação, faça o cálculo e veja se compensa. Se não, corra e tente procurar outros que deem mais sossego. No fim das contas, cedo ou tarde você vai perceber que dinheiro nenhum compra aquele soninho tranquilo à noite.


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Ei, você aí que quer fazer Letras!

Muita gente espera o fim do ano chegar para botar ordem nas metas e objetivos do próximo ano, e isso pode incluir decisões como fazer uma faculdade, o que é ótimo. No mês de janeiro, três pessoas entraram em contato comigo querendo saber o que achei da faculdade de Letras, pois estão pensando em ingressar nessa área e gostariam de ter informações de um conhecido. Então, para não ficar repetindo o mesmo papo, decidi postar aqui um resumão da minha experiência na faculdade. Assim, qualquer pessoa interessada pode acessar essas informações a qualquer hora.
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Sou licenciada em Letras (inglês) pela Universidade Federal Fluminense, campus doGragoatá. Como a UFF tem quatro ou cinco campus praticamente coladinhos uns nos outros, acho importante mencionar que, se você fizer Letras, vai estudar no Gragoatá (campus lindo, com uma vista espetacular da baía de Guanabara).  Acho ótimo quando vejo alguém interessado em investir nessa área, e eu sou suspeita para falar, porque adoro e não me arrependi! Ah, importante: me formei em 2013. Então, mesmo que meu texto ainda sirva como uma orientação inicial, procure alguém que possa te dar informações mais recentes.
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Diferentemente dos cursos de bacharelado, o curso de licenciatura em Letras visa formar professores. Isso não quer dizer que você não possa seguir outros caminhos depois da formatura, como eu, que virei tradutora, mas o foco do curso é a formação docente. No meu caso, optei pelo curso de licenciatura com habilitação em inglês. Isto é, com a formação que tenho, posso dar aulas de português e inglês. No curso de licenciatura, você verá basicamente esses três grandes “blocos” de estudo: literatura, linguística ou pedagogia. Veja o que cada um deles pode oferecer:
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Literatura
Para quem ama ler (como eu!), as aulas de literatura são um prato cheio. Você vai estudar as principais obras literárias e vertentes históricas do Brasil e, se optar por um curso de língua estrangeira, também estudará as obras do país escolhido. No meu caso, como escolhi inglês, li muito sobre os movimentos literários nos EUA e na Inglaterra.
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É um curso maravilhoso para quem gosta de história, pois os aspectos históricos têm grande influência na escrita de cada época. Estudar literatura habilita a dar aulas sobre o assunto e, se você não tem interesse em lecionar, é possível trabalhar com pesquisas. Para isso, converse com os professores e procure integrar os grupos de estudo da própria faculdade. Envolva-se nas aulas, pergunte, discuta, questione e faça seu interesse ser notado. Conheço muita gente que fez isso e hoje trabalha em ótimas pesquisas universitárias.
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Linguística
Em resumo, a linguística consiste no estudo do funcionamento das línguas. Mais uma vez, se você escolher um curso de um idioma estrangeiro, estudará português e o idioma escolhido. Nesse ramo da faculdade de Letras, você vai ver muita gramática, ortografia, semântica, sintaxe, morfologia, fonética… Ou seja, trata-se do estudo de todos os aspectos formais do funcionamento da língua.
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A parte que mais gostei de linguística foi estudar as variantes do português no Brasil, quando fizemos análises muito interessantes dos sotaques, regionalismos e características de cada estado. Fiquei maravilhada também com uma matéria muito legal de morfologia, sobre a composição das palavras do latim ao português. Gostei demais. Nessa área, a melhor opção para quem não quer dar aula também é investir em pesquisas.
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Pedagogia
Finalmente, o ramo de estudo preferido de quem pretende dar aulas (não foi o meu caso rsrsrsrs). Apesar de não ter curtido tanto as aulas de pedagogia, já que minha intenção não era lecionar, não posso negar que achei as aulas bastante úteis. Nessas matérias, o aluno aprende a elaborar projetos educacionais a serem aplicados em sala, além de ver uma perspectiva histórica da educação no Brasil (e no país estrangeiro, caso você escolha um idioma estrangeiro).
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Além disso, é essa área que exige ao aluno uma determinada carga horária de estágio (desculpem, esqueci a carga horária exata 🙁 ). Isto é, além da teoria explicada nas salas de aula da faculdade, você terá uma oportunidade de colocar a mão na massa em uma situação real de sala de aula.
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Não sei como são as outras faculdades, mas a UFF todo ano oferece algum tipo de evento de Letras. Eles sempre organizam palestras, apresentações, exposições, simpósios, feiras de troca de livros e muito mais. Aos interessados, recomendo dar umas voltinhas pelocampus do Gragoatá (blocos B, C e D) para conhecer o ambiente e até mesmo ler os cartazes espalhados, que sempre trazem informações muito úteis sobre tudo.
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Curiosamente, minha área de atuação não é um dos fortes da UFF (ainda!). Hoje trabalho como tradutora em uma empresa de localização de software, e a UFF não oferece muitos cursos de tradução. Se não me engano, os poucos têm foco em tradução literária, apenas. Ainda assim, tive professores excelentes que contribuíram muito para o meu desenvolvimento como profissional de tradução, e aproveitei muito conteúdo relevante.
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Então, se você gosta de ler e escrever, se tem vontade de desenvolver o que já sabe sobre língua portuguesa ou algum outro idioma, se gosta de história e viaja com os grandes clássicos da literatura brasileira, aposto que você vai se sentir em casa fazendo Letras. Acesse o site da UFF, entre em contato com professores, pergunte a opinião de colegas que estudam ou já estudaram lá e seja bem-vindo! 🙂

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Pra bom perguntador, só perguntar não basta

Sou perguntadeira desde criança e acredito que as perguntas são uma bela fonte de discussão dos mais diversos temas. Então, decidi escrever este post porque vejo aos montes profissionais que não sabem fazer perguntas (e não estou falando só da área de tradução).

Na hora de enviar um questionamento, procure “mastigá-lo” e já deixar preparada uma resposta, em vez de só jogar a pergunta nua e crua para seu cliente/colega resolver. Não entendeu? Dê uma olhadinha nos dois exemplos abaixo e veja se esclareci:

  1. “Prezado cliente/colega, achei os termos A e B no seu material de referência. Qual eu uso?”
  2. “Prezado cliente/colega, achei os termos A e B no seu material de referência. Procurei priorizar o uso de A em tal caso por tal motivo, mas notei que B também pode ser usado. Você tem alguma preferência?” 

Viu? A primeira pergunta indica que você achou uma incoerência no material, mas não propõe uma solução. Resumindo, você viu que há um problema, mas a impressão que passa é a de que não houve esforço para resolvê-lo. Você apenas o identificou e jogou a batata quente para a outra pessoa.

Já a pergunta B soa muito mais elaborada e menos preguiçosa. Com ela, você mostra que buscou uma solução (“Procurei priorizar o uso de A”), oferece um argumento para sua escolha (“em tal caso por tal motivo”) e pede para o cliente/colega confirmar uma decisão já tomada. Ou seja, você ofereceu uma proposta de solução e ainda deixou uma abertura ao diálogo (“Você tem alguma preferência?”).

Felizmente, a maior parte das pessoas com quem trabalho sempre está muito disposta a responder e colaborar, o que só tem a contribuir para a melhora da qualidade do texto. Sendo assim, sugiro que a gente tome doses cavalares contra preguicite aguda e faça um mínimo de pesquisa antes de sair tascando perguntas rasas para todo mundo.

Pergunte apenas quando você realmente sentir que precisa de uma segunda opinião, e faça perguntas de maneira inteligente. Assim, o cliente/colega vai notar seu esforço e provavelmente se sentirá muito mais disposto a te ajudar a descascar seu abacaxi. 🙂


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Por que eu amo revisar?

Ontem foi dia do tradutor (viva, Jerônimo!), e muitos colegas fizeram postagens sobre os motivos pelos quais amam ser tradutores. É claro que eu também amo traduzir, mas curiosamente esse clima todo me fez pensar bastante nos meus motivos para amar ser revisora. Como não aguento esperar até março para expressar meu amor pela revisão, fiz um resuminho desses motivos e decidi postar hoje mesmo. Revisores de plantão, depois me digam se a energia que nos move é a mesma. Eis os meus motivos:

1- Fazer parte do desenvolvimento profissional dos colegas

O bacana de revisar frequentemente os textos de um determinado grupo de pessoas é ver o aprimoramento da qualidade das traduções delas; modéstia à parte, mais bacana ainda é saber que tem dedo seu nesse aprimoramento. Como sou responsável por enviar e registrar feedbacks detalhados dos tradutores quase diariamente, tenho em mãos todos os textos avaliados e todas as informações sobre os erros cometidos em cada amostra analisada (o que dá um corpus bem interessante). Ou seja, posso comparar a primeira tradução de um fornecedor com a última, e fico muito feliz em dizer que, na maioria dos casos, o progresso da qualidade é evidente.

2- Ganhar a confiança das pessoas avaliadas

O fator confiança depende muito da relevância e da argumentação das correções sugeridas. Isto é, se você sugere uma correção, explica o motivo de tal correção e de quebra ainda oferece um embasamento teórico (uma fonte de pesquisa ou uma referência confiável que confirme o que você acabou de dizer), suas chances de ganhar a confiança da pessoa avaliada são muito grandes. Resumindo: não dê o peixe; ajude a pessoa a aprender a pescar. Mostre o problema e explique de onde você tirou a solução.

Por outro lado, se suas explicações são vagas e seus argumentos nunca convencem, a pessoa avaliada terá toda a razão do mundo para desconfiar dos seus feedbacks. Portanto, caro revisor, trate de estudar o assunto e dar justificativas plausíveis para as alterações que você sugerir. Esqueça esse papo de “está errado porque eu não gostei” e siga em frente com argumentos fundamentados em regras e explicações decentes.

3- Trabalhar em colaboração com profissionais de outras áreas

Ser revisora não faz de mim uma especialista em petróleo e gás, engenharia mecânica, medicina odontológica ou astronomia, por exemplo. No entanto, volta e meia trabalhos dessas áreas podem cair no meu colo, e eu tenho que revisar. Mas eu sou formada em Letras, e aí? Não adianta, não tenho como fugir. Nesses casos, me restam duas opções: torcer para que o cliente tenha um belo glossário e fontes terminológicas excelentes ou torcer mais ainda para que eu possa entrar em contato com o tradutor.

Quando o contato com o tradutor não é possível, infelizmente o meu trabalho se resume a conferir se o glossário e as instruções terminológicas do projeto foram seguidas (além de fazer pesquisas e corrigir o português, claro). Entretanto, quando o tráfego na via revisor > tradutor está sem congestionamentos, eu aproveito para verificar minhas dúvidas com quem realmente entende do assunto.

Senhor revisor, atenção especial ao verbo verificar dúvidas. Se você não entende do babado, não faz sentido algum sair canetando o texto do tradutor, afirmando de cara que ele está errado. Faça uma listinha das palavras que te causaram estranheza por algum motivo e peça ajuda ao tradutor. Só um profissional formado no assunto poderá dizer se o seu desconfiômetro funcionou direito ou não. Ou seja, se você só tem formação linguística, “baixe a bola” ao revisar textos de outras áreas e não hesite em pedir a ajuda de especialistas.

4- Aprimorar meu conhecimento geral e me desenvolver como profissional

A parte boa de trabalhar com textos de várias áreas todos os dias é aprender um pouquinho com cada uma delas, o que é um prato cheio para o conhecimento geral. Se o item 1 fala sobre a participação do revisor no desenvolvimento dos avaliados, o objetivo deste item 4 é mostrar que muitas pessoas avaliadas também colaboram para o desenvolvimento do revisor.

Importante dizer que essa troca de informações não acontece somente nas áreas que desconheço, mas também na minha área de formação (Letras). Volta e meia aprendo uma regrinha nova de português, um macete interessante de gramática ou alguma dica que me ajude a nunca mais esquecer a regência escabrosa de algum verbo, e essas contribuições vêm justamente das pessoas que eu avalio. Essa é uma das muitas vantagens de estabelecer uma relação saudável de diálogo entre avaliador e avaliado: os dois lados só têm a ganhar.

Por fim, esses são apenas alguns dos motivos que me fazem amar minha profissão, e espero que você ame também, amigo revisor. Acredito de verdade que nossa função como avaliadores e “emissários de feedbacks” tem tudo para ganhar a confiança e a simpatia de muita gente. Basta tomarmos cuidado e as devidas precauções, mas isso é assunto para outro post.


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Enquete

Semana passada, postei a pergunta abaixo no Facebook:

Ao se deparar com um erro de português em um texto (texto mesmo, não comentário de FB) de um colega profissional de revisão, o que você faz?

  1. Faço vista grossa e fico indignado. Afinal, ele trabalha com revisão e não deveria escrever textos com erros.
  2. Faço vista grossa, mas entendo perfeitamente. Afinal, errar é humano. Pode acontecer com qualquer um.
  3. Entro em contato com ele e aviso que o texto está errado. Afinal, quanto antes ele corrigir, melhor.
  4. Quase morro de vontade de avisar que o texto está errado, mas não aviso. Afinal, vai que ele se ofende?
  5. Depende do erro. Se for uma mísera vírgula, não aviso. Se a mísera vírgula estiver entre sujeito e predicado, aí eu aviso.

Felizmente obtive várias respostas, mas naquele momento não entrei em detalhes nem quis dar muitas explicações sobre o motivo pelo qual fiz a postagem. Pois bem, explico.

Trata-se de uma experiência pessoal e, na minha opinião, bastante enriquecedora, já que rendeu como frutos uma postagem bastante ativa no Facebook e mais este post que você está lendo. Enfim, há algum tempo publiquei no meu blog um texto sobre gramática que tinha um erro de gramática. Imagine só, é uma situação superchata. Então, uma boa alma* entrou em contato comigo por meio de uma colega de trabalho, me alertando sobre o erro e sugerindo uma correção.

Sem pensar duas vezes, voltei correndo ao texto do blog e corrigi o problema. Acredito que não chegava a ser um erro tão aparente, visto que somente aquela boa alma* entrou em contato para avisar. Por outro lado, fiquei me perguntando se outras pessoas teriam percebido a existência do erro, mas, por um motivo qualquer (receio, vergonha, medo, sei lá…), decidiram não me avisar. E foi assim que nasceu a pergunta postada no Facebook.

Enfim, agora que já expliquei a gênese disso tudo, chega de blábláblá e vamos ao que eu acho de cada opção. Importante lembrar que a minha humilde opinião já estava pronta antes da postagem do FB. Ou seja, não fui influenciada pelos comentários de vocês.

1. Faço vista grossa e fico indignado. Afinal, ele trabalha com revisão e não deveria escrever textos com erros.

Bom, se a pessoa se diz profissional de revisão e trabalha o dia inteiro com textos, correções e ainda faz avaliações dos outros, teoricamente ela não deve escrever textos com erros. Não podemos negar: esse tipo de deslize é feio (sim), é chato (sim) e, se ocorrer com frequência, pode prejudicar (sim) a imagem do profissional da palavra. Ou seja, ele definitivamente não sai bem na foto.

2. Faço vista grossa, mas entendo perfeitamente. Afinal, errar é humano. Pode acontecer com qualquer um.

Ok. Mesmo trabalhando o dia inteiro com textos, correções e avaliações dos outros, o profissional de revisão é um ser humano que também está sujeito aos infortúnios da fadiga. Vai que ele não dormiu direito, ou que havia um bebê chorando ao lado, ou um parente doente… Enfim, acontece com todo mundo, não tem jeito. Além disso, por mais que a gente leia 50 vezes o mesmo texto, nossos olhos se cansam e nos enganam (aliás, quanto mais a gente lê a mesma coisa, mais os olhos enganam). Chegamos a um ponto em que simplesmente passamos despercebidos pelos erros. Isso acontece mesmo. Todo santo dia.

3. Entro em contato com ele e aviso que o texto está errado. Afinal, quanto antes ele corrigir, melhor.

Particularmente acredito que esta seja a melhor opção, principalmente se a sua relação com a pessoa que cometeu o erro for de amizade. No entanto, mesmo que você não seja amigo da pessoa, o grau de profissionalismo dela pode ser um bom parâmetro para fazer ou não contato com ela. Ou seja, se você sabe que a pessoa é racional e age com maturidade e profissionalismo, é possível considerar uma abordagem delicada, sutil e particular (um e-mail pessoal, a inbox do Facebook…) para uma sugestão de correção. Por outro lado, por mais que a intenção seja boa, ninguém está livre de entrar em contato com um jerico e receber uma voadora nas costas. O que nos leva à próxima opção.

4. Quase morro de vontade de avisar que o texto está errado, mas não aviso. Afinal, vai que ele se ofende?

Essa preocupação é totalmente relevante. Por mais que a nossa intenção ao indicar o erro seja boa, infelizmente há quem pense que a gente só quer criticar, colocar o dedo na ferida e expor a pessoa ao ridículo. Consequentemente, esse tipo de pessoa que reage de maneira tão negativa a um problema acaba repelindo possíveis contatos profissionais, além de desperdiçar contribuições bacanas, boas sugestões, ideias e críticas positivas.

5. Depende do erro. Se for uma mísera vírgula, não aviso. Se a mísera vírgula estiver entre sujeito e predicado, aí eu aviso.

Acredito que esta opção seja superválida para pessoas dispostas a considerar a relevância do erro e o impacto que ele causará no público-alvo. Vamos analisar o uso das vírgulas, por exemplo: um erro de vírgula entre sujeito e predicado certamente não tem o mesmo impacto que a ausência ou não da vírgula que diferencia as orações subordinadas explicativas das restritivas. Ou seja, se o erro da pessoa é algo muito básico e de grande visibilidade, vale a pena avisar o quanto antes. Por outro lado, se for um daqueles problemas que nossa professora de português se enrolou para nos ensinar na escola e que nem mesmo os gramáticos entendem direito, talvez avisar não seja tão primordial assim.

Bom, essa foi a minha humilde opinião sobre cada uma das opções, e eu gostaria de agradecer a todos que participaram e se envolveram comentando e respondendo a enquete no Facebook. Vi pessoas escolheram decididamente uma das opções, vi outras que escolheriam mais de uma, algumas apenas comentaram sem escolher… e, no fim, aprendi um pouquinho com todos. Se você não respondeu pelo Facebook, sinta-se à vontade para responder pelo blog mesmo, no campo “Deixe um comentário”.

Por fim, fica o meu agradecimento mais do que especial à boa alma* que entrou em contato comigo avisando sobre o erro. Boa alma*, fico muito feliz em saber que olhos atentos e cuidadosos como os seus andam lendo meu blog, e tenho certeza de que muitos outros profissionais aceitariam de bom grado “palpites” de pessoas como você .

*Se quiser que seu nome seja revelado, me avise!


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