O marketing e o (in)feliz dia da mulher

 

Ontem foi um dos 8 de março mais atribulados para mim porque tomei a decisão de ler notícias e acompanhar a reação de colegas, grupos e empresas à data. Apesar das boas iniciativas, as (muitas) tentativas desastrosas de “presentes” e “elogios” nos mostraram que as mulheres ainda têm um longo caminho pela frente. O mais curioso é que todas essas tentativas falhas têm origem no mesmo problema: a falta de empatia. E como empatia é o tema de interesse este ano, vamos falar um pouquinho sobre ela no contexto do marketing empresarial.

 

Problema 1: empresas que se baseiam em estereótipos

Uma das grandes barreiras à empatia são os preconceitos, isto é, ideias generalizadas formadas sem a base ou o conhecimento necessário de uma causa. Neste post, vamos combinar que o termo preconceito será abordado apenas como opinião ou ideia preconcebida sobre algo ou alguém. Por enquanto, não mergulhemos a fundo no sentido de juízo de valor, discriminação ou intolerância.

Bom, eu poderia listar mil preconceitos agora, mas vamos aos mais clássicos sobre as mulheres: todas gostam de rosa. Todas gostam de pintar as unhas. Todas gostam de alisar os cabelos. Todas adoram salto alto. Todas gostam de maquiagem. E mais: todas as mulheres são super-heroínas. Todas querem ter filhos. Todas gostam de crianças. Todas têm uma capacidade natural de cuidar de casa, trabalho e família. E gostam, são felizes assim; afinal, está no DNA delas.

Viu? Identificar estereótipos não é tão difícil assim.

 

Problema 2: empresas que não sabem segmentar sua audiência

A partir do momento que me proponho a fazer uma campanha centrada apenas em um ou mais estereótipos, acabo excluindo grupos que pensem ou ajam diferente. É claro que você pode pintar toda a sua loja de rosa no dia 8 de março, é claro que você pode concentrar sua campanha de marketing em produtos para a casa. Só não esqueça de que pintar a loja de rosa pode afastar clientes que prefiram outras cores, ou que vender produtos para a casa pode não ser um bom atrativo para o público consumidor de maquiagens ou sapatos.

Busque ideais relevantes de verdade, não desperdice seu público.

A pergunta que não quer calar é: por que fundamentar toda a sua campanha de marketing nesses estereótipos? Não faz sentido segmentar sua audiência visando alcançar a um grupo menor, quando há tantas outras mulheres por aí com valores e ideais mais abrangentes, clamando serem ouvidas e representadas.

 

Problema 3: empresas que não conhecem o público

Por uma questão muito óbvia e compreensível, homens podem ter dificuldade de entender esses ideais ou de chegar a uma conclusão sobre algo que agradaria a todas as mulheres. Crescemos em meio a uma cultura de que “mulher é complicada” e “mulher é bicho difícil” (mais preconceitos). Em uma sociedade como a nossa, cujo egoísmo ainda tem raízes muito fortes, é fácil anularmos a individualidade do outro tentando reduzir sua experiência pessoal a uma generalização qualquer.

Afinal, o que as mulheres querem? Faça o seu dever de casa, pesquise. Você pode começar por este artigo, que certamente vai levar a muitos outros. Se você é homem e já pesquisou, mas ainda não conseguiu chegar a uma conclusão, converse com o máximo possível de mulheres. Interaja, procure conhecer suas vivências, se coloque no lugar de todas elas.

Ainda que sejamos diferentes, cada uma a sua maneira, com suas preferências e peculiaridades, no fundo todas nós queremos o mesmo: respeito, igualdade, valorização, voz. Pesquise e você descobrirá que não é tão difícil assim chegar a essas conclusões.

 

Patricia Moore: um mulherão que toda empresa deveria conhecer

Dados científicos já comprovam que a empatia é uma habilidade que pode ser exercitada. Ou seja, entender o público pode até ser difícil, mas não é (nem nunca foi) impossível. O marketing empático é uma ferramenta utilíssima para estimular a experiência da imersão, e um dos exemplos mais brilhantes disso é a Patricia Moore.

Nos idos de 1979, no ambiente predominantemente masculino das áreas de arquitetura, design e engenharia, Patricia conseguiu dar voz a seus ideais de maneira tão fenomenal que hoje é considerada uma das maiores especialistas do mundo sobre comportamento do consumidor. Em uma grande experiência de imersão empática, aos 26 anos, Patricia se transformou em uma idosa para entender as necessidades de seu público. Essa estratégia ficou conhecida como a Elder Empathic Experience, veja mais informações aqui.

Se hoje já ouço relatos de colegas mulheres sobre como é desafiador estudar e trabalhar em ambientes masculinos, lidando não apenas com o assédio, mas com a desvalorização de seus ideais e opiniões, imaginar esses mesmos desafios acontecendo há tantos anos só aumenta o meu respeito por uma profissional como Patricia Moore. Empresas, é disso que precisamos: abram alas para suas Patricias, Julias, Marianas e tantas outras.

 

A mulher no setor de serviços linguísticos

Desde que comecei a trabalhar, revisei alguns homens, mas muito mais mulheres. Nos eventos e congressos que frequento, sempre há alguns homens, mas uma quantidade muito maior de mulheres. Salvo certos nichos, somos um mercado predominantemente feminino e creio que isso seja um consenso. Então, para terminar, tomo a liberdade de compartilhar algumas reflexões.

Quantas dessas mulheres ocupam cargos de liderança? Quantas você conhece em diretorias e presidências de grandes empresas, associações ou instituições de ensino? Quantas já se sentiram diminuídas no ambiente de trabalho? Quantas se sentem valorizadas, inclusive em termos de salário? E o mais importante: será que homens e mulheres têm respostas diferentes para essas perguntas? A tradutora e revisora Carreen Schroeder fez uma pequena pesquisa sobre isso. Os resultados são intrigantes e merecem nossa reflexão, já que seus apontamentos abrem espaço para falarmos sobre temas de interesse das mulheres desse mercado de trabalho.

Portanto, fica a proposta: pesquise, imerja, conheça, entenda. Abra espaço e procure ver as situações pelos olhos do público. Nem sempre é fácil, mas mulheres como Patricia e Carreen estão aí para nos mostrar que não é impossível.

E às minhas colegas, desejo que tenhamos dias melhores, na medida do possível. Talvez um dia consigamos ter um 8 de março verdadeiramente feliz para todas.


1 Comment

Paulinha Vianna

março 10, 2018at 8:19 pm

Que maravilhoso! Esse ano, assim como você, eu também parei para escutar. Não desejei feliz 8 de Março na página da minha empresa, mas tirei 2018 para compreender mais. Li inúmeros relatos de abuso e assédio (coisas que, felizmente, nunca aconteceram comigo) e fiquei tentando compreender essas mulheres, essas dores.
Nosso dia, que hoje tentam, a todo custo, transformar em data comercial não pode ser desperdiçado dessa forma, penso eu. E, agora, depois do tanto que li, seu post vem só sedimentar tudo aquilo que já pensava. Eu sou mulher, mas não saberia fazer uma campanha para mulheres, no dia 8 de março, sem que cair em velhos clichês femininos. Esse ano, porém, eu aprendi e espero, em 2019, colocar tudo isso em prática.
Parabéns pelas suas reflexões Mit!

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Promova a cultura da empatia!

#TraduçãocomEmpatia #RevisãocomEmpatia

#TraduçãocomEmpatia #RevisãocomEmpatia